Há 107 anos a pôr o preto no branco

Assim não, senhor presidente!

Andamos há 107 anos a pôr o preto no branco. O slogan é já conhecido dos nossos leitores. Adoptámo-lo em 1992 e nunca mais lhe viramos as costas.

A expressão “pôr o preto no branco” é um trajeito popular que está diretamente ligado ao nosso trabalho, ou seja, em primeira análise é isso que fazemos: colocamos o preto (letras das notícias) no branco (do papel do jornal).

Porém, a expressão vai mais além desta primeira análise. “Colocar o preto no branco” é também sinónimo de um acto de coragem e de verdade.

E é disso que quero hoje falar aos leitores deste jornal.

 Esta semana o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, alertou para a necessidade do governo criar mecanismos de apoio aos orgãos de comunicação nacionais que atravessam momentos de crise.

A crise crónica do país, agravada com a revolução da comunicação digital, com blogs e redes sociais incluidas, tem vindo a criar dificuldades acrescidas em toda a imprensa nacional, sendo mais notória na irremediavelmente sacrificada Imprensa Regional.

Esta imprensa de proximidade, onde incui o “Cardeal Saraiva”, é muitas vezes circunscrita a uma localidade, está de forma irremediável à mercê das características do seu território, nomeadamente no que diz respeito ao mundo empresarial. O vigor empresarial pode ditar melhores receitas de publicidade para os orgãos de comunicação locais, o que se revela vital para a longevidade destes orgãos de comunicação.

Acontece que, para além dessas desventuras, muitas vezes, o caminho desta imprensa de proximidade acaba por se cruzar com o mundo da política, que, como sabemos, tem sempre uma “forma muito peculiar de levar as coisas por diante”.

Vem isto a propósito das relações que este semanário tem vindo a exprimentar com a Câmara Municipal de Ponte de Lima, nomeadamente o seu presidente, Vitor Mendes.

Há cerca de seis anos tomamos conhecimento que a Câmara Municipal de Ponte de Lima contratava um pacote de publicidade anual com os orgãos de comunicação social locais, excepto com o “Cardeal Saraiva”. Conhecedores da situação este jornal enviou uma proposta ao Município para que fosse também contemplado com igual contrato de publicidade, o que veio a acontecer. O valor de publicidade em questão não é um valor elevado e, só para termo de comparação num desses anos o Município de Arcos de Valdevez gastou dez vezes mais com os meios de comunicação arcoenses do que o Município de Ponte de Lima gastou com os locais.

 

Nos anos seguintes, no início do ano, voltamos a enviar propostas, mas desta vez conseguimos apurar que os valores eram diferentes para os vários orgãos de comunicação, sendo que um desses orgãos, ao que conseguimos apurar até hoje, sempre recebeu um “bolo maior”.

Quisemos saber porquê e contactamos, na altura, uma pessoa próxima da presidência da Câmara limiana, que nos informou que tal se devia ao facto da “fazer diretos” dos acontecimentos promovidos pela Câmara.

Na altura alertei a minha interlocutora para o facto de que essa avaliação tinha pressupostos errados e criava dúvidas. Seriam esses “diretos” notícia ou publicidade? Se fossem notícia, não seriam pagos; se fossem pagos seriam publicidade. A minha interlocutora finalizou dizendo serem essas as ordens internas.

Nos anos seguintes o contrato de publicidade adjudicado ao “Cardeal Saraiva” continuou a ser de valor mais reduzido, sendo que a razão apontada continuva a ser a mesma.

Em 2015 conseguimos ver o contrato adjudicado no início do ano (em Março), mas no ano seguinte o contrato só foi autorizado em Outubro, após constantes contactos com a Câmara Municipal.

No início do ano de 2016 enviamos proposta, mas só em Julho obtivemos resposta com o Município a sugerir que para o contrato ir para a frente deveria ser aplicado um desconto na ordem dos 40 % do nosso valor por nós proposto.

Já este ano de 2017, em Janeiro, enviamos nova proposta para que o “Cardeal Saraiva” fosse contemplado com a publicidade anual, mas as respostas foram sendo adiadas, até ao dia em que Vitor Mendes solicitou uma reunião comigo na Câmara Municipal, em finais de Fevereiro.

Nessa reunião Vitor Mendes disse não querer interferir com a linha editorial do jornal, mas avançou que achou estranha a forma como surgiu a notícia da reunião de câmara sobre a Incineradora de Arcozelo.

Por outro lado Vitor Mendes deu-me a conhecer o seu desagrado pelo facto do jornal não estar presente nas iniciativas que a Câmara tinha vindo a promover. Expliquei que nem todas as iniciativas da Câmara se revestem de valor noticioso, nomeadamente as visitas a obras (não as obras em si), mas que aquilo que é essencial temos vindo a noticiar.

Expliquei a Vitor Mendes que estaria para breve (em Março) a contratação de mais um jornalista ao que o presidente da Câmara me retorquiu: “Então quando tiver esse jornalista e acompanhar as nossas iniciativas falamos da publicidade”.  Por sugestão de Vitor Mendes deveríamos ter nova reunião após essa data (Março), o que nunca veio a acontecer, porque nenhuma das partes mostrou esse interesse.

Tendo sido recusada a nossa proposta de publicidade anual em Fevereiro, ela foi novamente sugerida por mais quatro vezes durante o corrente ano, sendo que Vitor Mendes recusou sempre todas as nossas propostas.

Por outro lado, sugerimos a colocação de publicidades pontuais, conforme os eventos iam acontecendo em Ponte de Lima, mas todos eles foram também recusados à excepção de um em que Vitor Mendes se propôs pagar 50%  do valor orçamentado, o que recusamos.

Durante o corrente ano, e já vamos no nono mês do ano, enviamos à Câmara Municipal quase todas as semanas orçamentos para publicidade pontual, os quais foram sistematicamente recusados por Vitor Mendes, sendo que foi a primeira vez que tal aconteceu, nos últimos (talvez)  dez anos,

Até numa circunstância mais especial, como é o caso das Feiras Novas, a Câmara Municipal não aceitou a nossa proposta para colocação de publicidade neste jornal.

Chegados aqui poderíamos pensar que afinal “a Câmara Municipalde Ponte de Lima não precisa de fazer publicidade”, tal como a explicação que em tempos idos recebi através de ofício vindo do município limiano. Mas não, a Câmara continua a fazer publicidade “dentro e fora de portas”, por isso, essa questão parece não se colocar.

Ora o que falta, então, para que o jornal Cardeal Saraiva seja contemplado com publicidade em igualdade de circunstâncias com os outros orgãos de informação locais? Será uma “peregrinação” de visita e inauguração às inúmeras obras que invadiram o território limiano com vista às eleições do próximo fim de semana? Creio que sim.

Esta é a face negra dos políticos com a qual eu pessoalmente não convivo da melhor forma. Como diretor deste jornal lamento que alguns dos nossos políticos locais não saibam respeitar a democracia, as diferenças de opinião e abrir espaços ao diálogo em vez de fechar portas.

Tal como dizia no início deste texto “pôr o preto no branco” é também sinónimo de verdade e coragem. Pois, caro leitor, elas aqui estão! Juntas! Os nossos leitores precisam de saber como é difícil “navegar nestas águas”, onde a política baixa continua a fazer das suas, a marginalizar e a retaliar sem dó.

 

Avelino Castro

diretor